AAS – Amnésia Amorosa Seletiva – Por Daniel Braz

AAS

Você sai de casa, passa na padaria, passa no bar, passa frio, passa debaixo da marquise pra não tomar chuva e numa dessas passadas conhece alguém. Aí vocês se sentem bem quando estão juntos, trocam uns beijos, comem comidas que parecem ter um sabor muito melhor do que antes, quando comiam sozinhos, bebem coisas novas, experimentam itens nunca antes explorados do cardápio e depois sentem um tesão incontrolável pelo outro. Aí misturam orgasmos deliciosos com programas interessantíssimos, festas alucinantes, luzes, cores, nuances e um cenário de filme se forma bem diante da sua vida real. É real, é paixão, é tesão, é um monte de coisa misturada. Uma loucura essa nossa facilidade de entregar toda nossa vida na mão de um estranho em questão de dias…

Depois vocês começam a se acostumar com a presença do outro e os dias solitários parecem estranhos. Junto com a saudade vem o desejo de estar nas cenas mais banais, como na hora que aquele cara tropeçou na rua e você não teve com quem rir, ou quando a moça da novela estava com batom no dente da frente e não tinha ninguém pra falar disso. Mas não é só o par que faz falta. Apaixonar-se por alguém é como derreter chocolate no microondas e depois misturar a pasta sobre uma tigela de farofa de paçoca. Você mistura tudo porque é delicioso, mas não tem um plano de fuga. Vem a porra toda no pacote, vem amigo, vem cachorro, vem barzinho preferido, vem família, vem o caminhão da Granero inteiro e você tem que dar um jeito de acomodar a tralha toda. E cabe. Sempre cabe.

Só que aí um dia tem uma briga. Coisa besta até, ciuminho idiota. Só que essa briga ficou prenha e botou um puta ovo enorme no meio da sala. E você e o outro ficaram, sem querer, chocando esse ovo. Daí nasceu uma figura monstruosa de desconfiança e desapego. Logo esse bicho esquisito tomou conta de todos os espaços da casa e tudo parecia apertado demais. De repente era sempre mais confortável ficar longe, chegar mais tarde, aparecer depois, não ligar, não perguntar, não saber, não conversar, não querer mais nada. Então separa. Aí da a impressão, logo no primeiro dia, que você rasgou o bilhete premiado da loteria. Dá arrependimento, dá saudade, dá medo, dá uma loucura estranhíssima. Só que passa.

Quando passa as pessoas encontram só dois caminhos possíveis: ou sentam e conversam, ou não sentam e não conversam. Geralmente no primeiro caso existe uma intensão falsa de manter o contato, a amizade, o respeito, mas a vida sozinha acaba resolvendo essas arestas e as pessoas param de lembrar que a outra existe ou isso deixa de ser importante demais. Tudo bem, acontece. Só que quando as pessoas não sentam e não conversam acontece um fenômeno extraordinário: dá em AAS (amnésia amorosa seletiva). O casal, ou um dos membros do casal, esquece tudo o que viveu de bom e passa a lembrar só das partes ruins. Ele era egoísta, ela era mesquinha, ele era infiel, ela era mentirosa, ele era pão duro, ela era aproveitadora, ele era idiota, ela era burra. Em um recurso desesperado de autopreservação, o cérebro, essa beleza indecifrável que torna nossa cabeça redonda, decide mudar a realidade e tornar o passado uma coisa bem pior do que era, como se dissesse “não volta lá, não vale a pena”. É, na maioria das vezes, bem eficaz.

Acontece que fica pra trás, no meio dessa lama nova que a gente mesmo cria, as melhores músicas, os melhores lugares, as melhores viagens, os melhores sorvetes, as melhores festas, os melhores jantares, as melhores coisas que um dia a gente achou que eram mesmo as melhores. Talvez não fossem, mas mereciam seu valor e reconhecimento. Temos, às vezes, um desejo imbecil de estragar coisas que deram muito trabalho para construir. É como uma pessoa que perde uma nota de R$50 e deseja com todas as forças que ela caia num bueiro só para ninguém mais ter acesso àquele benefício perdido. Porque convenhamos, amar e ser amado é um benefício e tanto. Acho interessante como as histórias de amor são bem mais coloridas no começo, como se a nossa própria estupidez não nos permitisse lembrar que todo fim é um início. Isso é um erro e tanto.

Sobre Zena Ribeiro

Ela sai de casa carregando seus sonhos. Ela é intensa em tudo. Ao seu redor o mundo passa, e ela vai levando a vida com toda a sua intensidade, ela até tenta, mas não sabe ser diferente, ou indiferente, não sabe ser meio termo, mais ou menos, um pouquinho... O ritmo dos seus passos revela uma mulher que aparentemente transborda força, mas em seu interior só ela mesma pra saber o quão frágil é, às vezes, mas ela tenta esconder essa fragilidade e na maioria das vezes até consegue. Ela olha em volta com olhos de criança, que descobrem os sentidos da vida a cada dia. Seus passos são firmes, de uma mulher que respeita suas vontades, que escuta seus sentimentos e entende sua força e sempre segue o seu coração. Em sua caminhada percebeu que simples detalhes fazem toda a diferença, guarda cada palavra dita, lembra de cada conversa e imagina o porquê atrás de cada ação. Pensa e repensa o significado de tudo, pode se magoar com uma simples palavra, assim como pode sorrir o dia inteiro também. Por mais que a vida diga não, ela aprendeu que pode ser quem quiser. Aprendeu que não é melhor e nem pior que ninguém, mas também aprendeu a reconhecer seu valor. Depois de tanto tentar se encaixar nos padrões de beleza aprendeu que mulher bonita é a que luta. Que luta sempre e grita quando necessário. Aprendeu a correr atrás dos seus objetivos, mas o mais importante aprendeu a não se culpar quando as coisas não acontecem como planejadas. Ela não aceita galanteios gratuitos, ela não aceita desaforos, ela não aceita que encostem sem sua permissão, ela não aceita que a rotulem, ela não aceita que decidam sobre seu corpo, ela não aceita que decidam sobre sua vida, ela, a pessoa mais importante da sua vida, não aceita.... Ela que todos os dias dorme com a esperança de que amanhã vai ser melhor, ela que é tantas, ela que é todas... Ela sou eu. Todo dia acordo e não sou mais a mesma de ontem, eis a dificuldade de me descrever...
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